domingo, 21 de dezembro de 2008

#36

Não sei a quantas anda o Kindle, o iPod dos livros que a Amazon lançou no fim do ano passado. A última notícia que tive dizia respeito a um repentino e significativo aumento de suas vendas, depois que a Oprah Winfrey o mencionou em seu programa.

Aumentou, mas não virou febre como o iPod.

A única experiência que tive de ler um texto longo no PC foi particularmente desagradável. Eu sei que grande parte dessa culpa se deve à forma de iluminação da tela e que os novos aparelhos como o Kindle cuidaram desse detalhe.

Mas o livro de papel talvez ainda tenha seus encantos e os mantenha guardados sob forte esquema de segurança.

No entanto, se um dia essa magia for quebrada, a mesma relação que temos hoje com a música (o facílimo e amplo acesso a praticamente tudo que já foi lançado) chegará ao mundo dos livros.

E, assim, ao invés dos discos das três melhores bandas britânicas das últimas semanas, trocaremos as obras completas do Guimarães Rosa, do Shakespeare e do Nick Hornby. Filosofia grega completa? Tá na mão! Teatro também? Tó! Luís Fernando Veríssimo? Mole pra nós.

Ok. Ótimo.

Com verdadeiras bibliotecas de Babel em nossos bolsos, leríamos mais?

E melhor?

Abastecidos em questão de minutos com mais livros que duas bibliotecas de Alexandria, o que priorizaríamos?

Já cansei de ouvir lamentos de quem tem o hábito de baixar músicas da angústia pela falta de tempo de se ouvir atentamente a tudo aquilo que se baixou. E olha que falta de tempo já é o argumento primeiro de defesa de quem não tem o hábito de ler.

Livros de papel ocuparão assim um lugar semelhante àqueles que o vinil e, de certa forma, o CD ainda representam para o mundo da música. Um artefato de luxo, para quem exige e tem disposição e grana para pagar por uma qualidade melhor na apresentação de um determinado conteúdo.

E, como todo artefato de luxo, caro.

Ou seja, ou nós, bibliófilos anônimos e, até lá, antiquados, nos adaptemos, ou pagaremos ainda mais caro do que já pagamos por livros aqui no Brasil. Já que as tiragens, que já são ridículas, tenderão logicamente a cair. Quiçá desaparecer.

E aí eu quero ver alguém traduzir na raça aquele escritor turco ganhador do Nobel em 2023.

1 comentários:

Diogo disse...

A propósito de resistência a ler na tela: http://www.odesemprenunca.com.br/2008/12/21/tabbloid/